Quinta-feira, 5 de Março de 2009

Estou a fazer quimioterapia e a enfermeira que me trata há várias semanas...

A enfermeira que está a ser minha amiga...que se ri das minhas piadas...

a mulher de coração de ouro que trabalha comigo na esperança de me salvar...

Anuncia-me, contendo as lágrimas, a morte do seu querido membro de quatro patas, que há treze anos fazia parte da sua família...

"E agora os meus filhos?" pergunta-se deseperada...

(pausa)

Olhei-a, estendi-lhe a mão solidário, mas dizendo para mim...

Mais uma grande contradição... mais uma das situações de contraste aqui desta sala: a morte de um cão a causar consternação? Aqui...

Aqui, no meio de uma sala de tratamentos, onde dezena e meia de pessoas lutam pelas suas vidas...

a vida de um Cocker Spaniel parece valer tanto como uma vida humana...

Ou será a própria vida que vale aqui mais que em qualquer lugar?

(pausa)

 

Será uma futilidade chorar a morte de um cão quando é a própria morte que nos quer chamar para junto de si?

Quando um cancro nos ataca?

E no caso da enfermeira, estará proíbido a quem convive diariamente com a morte humana, chorar uma morte não humana, com a mesma tristeza? Com o mesmo pesar?

(pausa)

Já chorei muito a morte de um cão...

Sei bem o valor e o papel que um cão tem na vida de uma família com crianças...

(pausa)

(entra Like a Rolling Stone)

E ninguém imagina o valor que se passa a dar à vida... quando um exame médico nos decreta um possível fim de vida...

Ninguém imagina o que é viver, sem a despreocupação de estar simplesmente vivo...

Viver uma rotina, onde o pensamento diário é não ceder à doença...

(pausa)

Digo-vos: Assim de um dia para o outro...quando a nossa própria vida ganha passa a valer tanto como o ritmo de uma pedra a rolar rua abaixo...

Vemos a simples morte de um cão, como uma pequena vitória do agoiro que paira sobre nós...

Por isso choramos...

 

Todas as cronicas em: http://radioclube.clix.pt/podcast/index.aspx?id=135

 

 

 

 

 



publicado por Novas Crónicas da Sala de Espera às 11:31 | link do post | favorito

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Este é um díario, com cónicas que leio todos os dias no Rádio Clube, durante o programa Janela Aberta. São relatos da experiência que vivo na luta contra um tumor no recto. Emite todos os dias depois das 18h15.
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