Quarta-feira, 25 de Março de 2009
É noite dentro, estou deitado...

Tocam os Xutos...no meu pequeno MP3

Ouço-os repetidamente "Circo de Feras...", "O homem do leme..."

À falta de outra interlocutora pergunto à minha almofada: "Querida amiga, neste momento
de tormentas e calmarias que vivo, que surpresas achas que me reservará mais o
homem ao leme...aquele que traça os rumos da minha vida?!"
 
Ela responde de imediato:

Almofada: "Que somos nós senão simples passageiros, a bordo de um grande paquete,
lotado de pessoas só com bilhete de ida?"
 
Gosto deste estilo meio enigmático e pessimista de arauto da desgraça que a minha almofada usa para me responder...
 
 
 
Por isso desabafo-lhe todas as minhas angustias:
 
"Reservará para mim esta doença o mesmo destino que as Odes marítrimas
deram aos marinheiros de outros tempos?"
 
 
A resposta surge pronta e fria:
 
Almofada: "Vocês  homens têm uma vontade incontrolável de ir, mas não de voltar para contar, mesmo quando têm pena de ter partido! Gostam de viver o vosso futuro incerto..."
 
 
Tens razão...
 
E eu tenho vontade de ir...como na canção...mas também gostaria de voltar...
 
Fez-se uma pausa na conversa. Relembrei o meu breve passeio pelo convés do Queen Elizabeth, na sua última viagem, passando por Lisboa...

Como me imaginei ali, passeando, descalço, talvez com um livro debaixo do braço, talvez com um gin tónico à minha espera, numa dessas espreguiçadeiras que nos levam mar adentro.
 
 
Arrisco nova pergunta:
 
"Será assim o fim da nossa vida? Desaparecemos na bruma de um convés, de livro debaixo do braço, para a eternidade...
 
A almofada muda de assunto:

Almofada: "Lembras-te do teu amigo João Braz, aquele pescador de Cascais, a quem
carinhosamente chamavas "O meu mestre"...

Foi meu mestre na paixão pelo mar...

As histórias que me contava dos perigos que passou nos mares gelados
do norte, e dos tempos da pesca do bacalhau...

As lágrimas que lhe vi correr quando me descreveu uma tarde de solidão
em que o visitou uma baleia...

O Padre que fazia contrabando de tabaco, que escondia atrás do altar...

Mas sobretudo a tristeza que senti naquele dia quando lhe telefonei, e me atendeu a mulher dizendo-me que tinha morrido de cancro...

Almofada: Levou-o homem do leme...
 
 
Levou-o o homem do leme...


publicado por Novas Crónicas da Sala de Espera às 13:24 | link do post | favorito

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Este é um díario, com cónicas que leio todos os dias no Rádio Clube, durante o programa Janela Aberta. São relatos da experiência que vivo na luta contra um tumor no recto. Emite todos os dias depois das 18h15.
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